Página do Microcrédito

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David Roodman: “O microcrédito cria pobres endividados”

Posted by Página do Microcrédito em 16 fevereiro, 2012

O matemático diz que poupança e seguro de vida ajudam mais a reduzir a pobreza do que empréstimos fáceis, que as pessoas não conseguem pagar

Por DANIELLA CORNACHIONE

Combater a pobreza nunca foi fácil, e a crise global tornou o desafio ainda mais complicado. O avanço do desemprego, do custo dos alimentos e das barreiras comerciais em diversos países voltou a elevar, recentemente, o número de pobres e miseráveis no mundo – há mais de 900 milhões de pessoas nessas condições. Por isso, é importante concentrar esforços no que realmente funciona, diz o americano David Roodman, matemático formado na Universidade Harvard, há 11 anos dedicado ao tema do combate à pobreza. O que não funciona, na visão dele, é inventar mecanismos de mercado – como o microcrédito – para emprestar dinheiro aos pobres e miseráveis. “O microcrédito não faz jus às promessas de tirar as pessoas da pobreza e dar mais poder às mulheres”, diz Roodman. “As pesquisas encontraram mulheres inadimplentes que perderam panelas, frigideiras, telhados por causa das dívidas.” O matemático, que morou dois anos no Vietnã, descobriu que as famílias mais pobres se beneficiam de verdade com outros serviços de microfinanças criados sob medida para elas, como poupança e seguros. Ele chegou a essas conclusões depois de três anos de pesquisa, análise de dados e muito debate em um respeitado blog (Microfinance open book, o “livro aberto das microfinanças”). As críticas e propostas que emergiram de lá estão no livro Due diligence: an impertinent inquiry into microfinance (em tradução livre, Auditoria: um questionamento impertinente sobre microfinanças, publicado nos Estados Unidos em janeiro, ainda sem previsão de lançamento no Brasil). “O espírito do livro foi tornar transparente o processo de escrita. Dividi tudo com os leitores: rascunhos, dúvidas, descobertas”, afirma. Com o blog e o trabalho na ONG Centro de Desenvolvimento Global, Roodman conquistara o respeito de economistas especialistas no combate à pobreza, como o bengalês Muhammad Yunus, defensor do microcrédito e ganhador do Nobel da Paz de 2006. Yunus apontou Roodman, que agora se tornou seu crítico, como “o mais consistente e articulado analista do microcrédito” surgido nos últimos anos.

ÉPOCA – O que há de errado no combate à pobreza hoje?
David Roodman – Tenho uma boa e uma má notícia. A má é que a forma mais popular de microfinança, o microcrédito, não faz jus à promessa de tirar as pessoas da pobreza nem dar mais poder às mulheres. É claro que o microcrédito às vezes consegue as duas coisas: se 1 milhão de pessoas têm acesso a microempréstimos, vamos encontrar uma variedade de resultados. Mas, na minha análise cuidadosa das melhores pesquisas, encontrei poucas evidências de que o microcrédito consiga esses efeitos na média. Recentemente, pesquisadores têm acompanhado grupos que receberam e que não receberam empréstimos. Eles descobriram que, depois de 15 a 18 meses, não havia diferenças entre os dois grupos quanto aos indicadores de pobreza, como gastos da família ou número de crianças frequentando a escola. Antropólogos têm encontrado histórias de mulheres no sul da Ásia que se sentiram mais valorizadas pela oportunidade de fazer transações financeiras em reuniões semanais de coleta dos pagamentos. Mas também encontraram histórias de mulheres inadimplentes que perderam telhados, panelas e frigideiras, roubados pelos conhecidos para pagar os empréstimos (na forma mais comum de microcrédito, as famílias pobres atuam como fiadoras umas das outras). Quando um empréstimo cria novas possibilidades para uma pessoa e quando é uma armadilha que a deixa ainda mais pobre? Se entrar em enrascadas por causa do microcrédito é algo corriqueiro, então deve ser uma preocupação de todos. Infelizmente, não temos informações sobre quão comum isso é. Por isso, apoio a busca por formas de oferecer melhores serviços bancários para os pobres, mas devemos ser cuidadosos ao empurrar empréstimos.

ÉPOCA – E qual é a boa notícia?
Roodman – A boa notícia é que o movimento das microfinanças mostrou a possibilidade de oferecer serviços financeiros – poupança, seguros, transferências de dinheiro – para milhões de pessoas que precisam. Serviços financeiros são como água limpa e eletricidade: essenciais para uma vida confortável. Imagine sua vida sem conta bancária, sem seguro, sem nenhum crédito em lugares como as Casas Bahia. Os pobres precisam de serviços financeiros mais do que os ricos, porque ser pobre significa ter renda pequena e volátil. Você precisa de meios para guardar o dinheiro nos momentos bons e usá-lo em tempos ruins.

ÉPOCA – Como tem sido a reação a suas críticas?
Roodman – Até agora, tenho apresentado o livro principalmente para quem se interessa pelo assunto. Entre essas pessoas, a maior parte dessas ideias não é surpresa. Nos últimos anos, tem havido muita discussão, dentro do movimento de microfinanças, sobre o que realmente sabemos do impacto que elas causam. Para aqueles menos acostumados com o tema, a reação principal é o desapontamento.

ÉPOCA – E o que você propõe para tornar o combate à pobreza mais eficiente?
Roodman – Não acho que os filantropos e as agências internacionais devam dar muitos subsídios ao microcrédito – as evidências não mostram que ele realmente mude a vida das pessoas. O crescimento rápido do microcrédito provocou quebras na Nicarágua, na Bósnia, no Marrocos e em regiões do Paquistão e da Índia. Os “investidores sociais” privados estão tentando ajudar, mas eles facilitaram demais os empréstimos. Alguns estão com dívidas até o pescoço. O movimento de microfinanças deveria tirar a ênfase do crédito e concentrá-la na poupança, nos seguros e nas transferências bancárias. É fácil ver como as pessoas podem ter problemas ao pegar muito dinheiro emprestado. Isso não acontece ao poupar demais, contanto que a poupança esteja segura. Instituições maduras de microfinanças como o BancoSol, na Bolívia, ou o Grameen Bank, em Bangladesh, agora fazem mais contas de poupança do que dão crédito. Na Bolívia, um dos primeiros lugares em que as microfinanças decolaram, as instituições agora têm mais de 2 milhões de contas poupanças – num país com 10 milhões de pessoas. Seguro de vida também é outro tipo de serviço simples, que pode ser muito valioso. Foi o primeiro tipo de seguro formal a ser vendido em larga escala na Inglaterra, quando o país se industrializou.

ÉPOCA – A tecnologia pode também desempenhar um papel?
Roodman – Tecnologias como transferências bancárias por celular e leitores de cartões geram inúmeras novas possibilidades para cortar custos e diversificar a oferta de serviços às pessoas pobres. No Quênia, o sistema M-Pesa, de transferência de dinheiro pelo celular, tem 14 milhões de usuários e faz mais transações que a Western Union (multinacional americana de 150 anos, especialista em transferências).

ÉPOCA – E no Brasil, há algo a destacar?
Roodman – O Brasil é um modelo também por causa de seus correspondentes bancários. Eles levam acesso a serviços de bancos às pessoas em lugares afastados. Lojistas permitem que você deposite e retire o dinheiro por meio de equipamentos colocados dentro do estabelecimento. Esses são todos exemplos de fornecimento de serviços financeiros aos pobres em escala muito grande – e eles não criam para os clientes os mesmos riscos que os empréstimos.

ÉPOCA – Você acha que o economista Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, está errado?
Roodman – Bem, Muhammad Yunus disse muitas coisas. Discordo de algumas. Ele estava errado ao intuir que exemplos bem-sucedidos de microcrédito contam a história toda. Também discordo que o microcrédito que busca lucro seja automaticamente considerado agiotagem, como diz Yunus. Para mim, ele é como Henry Ford. Yunus não inventou o microcrédito, mas foi o primeiro a massificá-lo.

ÉPOCA – Por que o microcrédito se difundiu mais em outros países, como a Índia, do que no Brasil?
Roodman – Alguns fatores explicam isso. O primeiro é o sucesso de emprestadores como as Casas Bahia, que são uma alternativa ao crédito direto no banco. Os brasileiros parecem mais confortáveis em (fazer a compra e) dizer “eu pago depois” do que em pegar empréstimo para pagar a compra à vista. Dizer “eu pago depois” parece um peso menor do que pegar dinheiro emprestado. Acredito que os bancos públicos do Brasil também têm resistido em permitir a competição entre instituições de microfinanças do setor privado.

ÉPOCA – A Índia é um caso de sucesso no uso de microfinanças?
Roodman – Infelizmente, não. Um exemplo: o Estado onde as microfinanças ficaram mais famosas foi Andhra Pradesh. Quinze meses atrás, o governo estadual decidiu desativá-las por causa de notícias de suicídios de mulheres inadimplentes. O problema do suicídio foi exagerado, e o governo reagiu com excesso, destruindo o microcrédito no Estado. Mas também me pareceu, quando visitei algumas aldeias por lá, em 2010, que ficara fácil demais pegar empréstimos. Algumas pessoas tomavam três, cinco, até sete empréstimos, que só eram pagos com muita dificuldade.

ÉPOCA – Os programas de combate à pobreza no Brasil também são motivo de debate. Os críticos dizem que os beneficiados ficam acomodados e preguiçosos.
Roodman – Não sei muito sobre esses programas, mas eles são famosos. No geral, acho uma boa ideia dar dinheiro diretamente aos pobres, especialmente numa sociedade desigual como o Brasil. Talvez nos EUA precisássemos mais do que isso. Suponho que os críticos desses programas sejam bem mais ricos do que quem recebe o benefício. Será que não são preguiçosos?

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/

Agradeço a jornalista Mariana Loiola pelo envio da notícia.

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