Página do Microcrédito

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Microcrédito, comunicação e redes sociais

Posted by Página do Microcrédito em 15 junho, 2007

Por Carlos Antônio da Silva

As instituições que trabalham com microcrédito devem definir políticas e estratégias, destinadas a conseguir um efeito maior com o mínimo de desgaste – as mudanças não têm ocorrido rapidamente apenas no mundo tecnológico, mas também dentro do contexto local e do convívio social, de maneira que os conhecimentos de ontem já não são suficientes para responder às novas realidades.

Atuar num mundo cada vez mais “interconectado” requer conhecimentos diversos e maiores que dificilmente podem ser adquiridos somente através da experiência local, e é neste sentido que a Internet aparece como um recurso maravilhoso, por sua capacidade de ampliar e dar velocidade ao intercâmbio de informações.

Tendo a Internet como uma ferramenta atualmente essencial, o caminho ideal que vislumbro para as instituições de microcrédito é o trabalho colaborativo em conjunto – um trabalho em rede, fortalecendo-se mutuamente. Não é inovador ter uma rede desse tipo – já temos algumas redes de microcrédito – porém o desafio é fazer com que essas redes sejam, efetivamente, eficientes. Para que sejam eficientes, é necessário que haja comunicação e participação entre os atores envolvidos.

Para as redes, a comunicação é um elemento que deve estar presente em suas estruturas e seus programas de formação. A participação em dinâmicas e oficinas se apresenta como um dos fatores mais importantes para a assimilação e o desenvolvimento conjunto de novos conhecimentos.

As trocas de informações que se implementam nas redes de organizações não só propiciam a abertura de novas temáticas e problemáticas diferentes como também contribuem para a consolidação do entendimento que cada integrante tem elaborado a partir de sua própria realidade. Nestes processos de troca, cada organização pode verificar que seus problemas são comuns às demais e aprender com outras abordagens e experiências, de tal modo que esses conhecimentos, a partir de uma realidade próxima, são assimilados com uma visão mais universal.

A criação de uma “cultura” da disseminação de informação é gradual. É um processo longo, pois iniciar um trabalho em rede também está muito ligado à situação e ao meio em que a organização vive, sua trajetória e seus propósitos. A sociedade determina o envolvimento, e não a tecnologia utilizada: “consideramos o desenvolvimento econômico local como a constituição de uma ambiência produtiva inovadora, na qual se desenvolvem e se institucionalizam formas de cooperação e integração das cadeias produtivas e das redes econômicas e sociais, de tal modo que amplie as oportunidades locais, gere trabalho e renda, atraia novos negócios e crie condições para um desenvolvimento humano sustentável” (Coelho).

A participação em redes, para muitas organizações, é o que as motiva a compartilhar sua informação e experiência com outras. Esse intercâmbio de informações também faz que aquele que envia valorize mais seu próprio conhecimento e a possibilidade de expô-lo – a percepção da importância da comunicação tem crescido e algumas organizações estão percebendo as diversas dimensões e possibilidades de uma rede, entre elas seu papel nas relações humanas e organizacionais, tanto internas quanto externas.

As informações, através da Internet, podem ser trocadas/divulgadas de forma extremamente rápida. Podem ser feitas redes temáticas das quais participem diversos atores, consolidando, assim, um processo de enriquecimento intelectual mútuo. Segundo Lévy, “as proposições de um ciberespaço e da criação de comunidades virtuais são respostas aos limites organizacionais de uma realidade complexificada com a globalização e seus efeitos negativos e positivos”.
Com a Internet, o intercâmbio de informações tradicional do “um-para-vários” é mudado para o “muitos-para-muitos”. A relação torna-se multidirecional.

Para um bom funcionamento de uma rede que utiliza a Internet como veículo para suas comunicações, faz-se necessário um “compromisso” de todos os participantes na busca e na disseminação da informação. Tudo que for pertinente ao assunto deve ser compartilhado – “como toda comunidade, as virtualmente constituídas precisam de acordos para a convivência e procedimentos sociais” (Lévy).

Em uma rede de organizações de microcrédito as pessoas que a acompanham devem ser capacitadas para que encaminhem corretamente as informações interessantes para a organização em que atuam – essas pessoas necessitam de flexibilidade de ação, raciocínio lógico/abstrato, compreensão do processo de redes e suas diferentes interconexões, capacidade de trabalhar em equipe e de ler e interpretar informações em diferentes linguagens. De acordo com Orlando, “novidades precisam ser compreendidas, potencialidades precisam ser valorizadas e ambivalências precisam ser superadas”.

Claro que ainda existem alguns obstáculos para o bom funcionamento de uma rede como essa, como, por exemplo, recursos humanos, recursos financeiros e, principalmente, tempo. Sustentar uma rede exige um esforço singular, e somente algumas organizações que já têm bem definida a necessidade da comunicação como um elemento essencial, conseguem dar continuidade. Cada qual, a partir de sua realidade, deve articular devidamente sua estratégia, para que possa atingir seus objetivos.

Um exemplo, entre alguns outros que poderia citar, de trabalho em rede de forma colaborativa e participativa é o do projeto Porto Digital, um projeto de desenvolvimento econômico que reúne investimentos públicos, iniciativa privada e universidades. Hoje compõe um sistema local de informação que tem 68 instituições – entre empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), serviços especializados e órgãos de fomento que agregam as iniciativas existentes no setor de TICs de Pernambuco – e promove a sua articulação em um plano muito mais amplo, maximizando os resultados dos esforços que anteriormente eram individuais e isolados.

A motivação para que este intercâmbio de informações ocorra em uma rede depende, segundo Adulis, da “percepção de que existam objetivos ou interesses compartilhados que possam ser alcançados através do processo de interação dos mesmos no âmbito da própria rede (networking)”.

Para isso seria necessário, conforme Adulis, que os objetivos das instituições que têm a intenção de trabalhar em rede sejam favorecer a circulação e a troca de informações, o compartilhamento de experiências, a colaboração em ações e projetos, o aprendizado coletivo e inovador, o fortalecimento de laços entre os membros, a manutenção do espírito de comunidade e a ampliação do poder de pressão do grupo.

Conforme Euclides Mance, “a idéia elementar de rede é bastante simples. Trata-se de uma articulação entre diversas unidades que, através de certas ligações, trocam elementos entre si, fortalecendo-se reciprocamente, e que podem se multiplicar em novas unidades, as quais, por sua vez, fortalecem todo conjunto na medida em que são fortalecidas por ele, permitindo-lhe expandir-se em novas unidades ou manter-se em equilíbrio sustentável. Cada nódulo da rede representa uma unidade e cada fio um canal por onde essas unidades se articulam através de diversos fluxos” – o que nos transporta novamente para o desafio do trabalho em rede, o desafio da troca de conhecimentos, de que algumas funções tendem a ser mais difíceis nas redes, como a coordenação, a definição de responsabilidades e a alocação de recursos para alcançar os objetivos. Além disso, conforme Adulis, geralmente a mensuração e avaliação dos resultados alcançados também tende a ser mais difícil.

Para finalizar, Amaral afirma que “a sustentabilidade das redes repousa e depende do interesse das pessoas em se comunicarem e compartilharem seus conhecimentos, seus anseios, seus objetivos” – e isto dentro de uma nova relação com o conhecimento, a partir do entendimento de que é necessário utilizar ferramentas de recuperação e relacionamento da informação e estruturar os materiais recebidos e transmitidos.

Referências

Coelho, Franklin. “Desenvolvimento local e construção social – o território como sujeito”
Pierre Lévy. (1994). “A inteligência coletiva. Por uma antropologia do ciberespaço”
Orlando, V (Org.). “Internet e educação”. São Paulo: Unisal, 1999. 62 p.
Amaral, Vivianne. “Rede Brasileira de Educação Ambiental: 10 anos construindo relações cidadãs para uma sociedade sustentável”
Adulis, Dalberto – coordenador de Comunicação da ABDL e assessor para Projetos especiais da Rits
Mance, Euclides. 2000, p.24
Porto Digital – http://www.portodigital.org

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